Canto Cerrado é a faixa que abre Logo Ali, de Bemti, disco que acaba de completar cinco anos. Nos últimos dias, a música ganhou, para mim, novas camadas diante do clima tenso que se instaurou no Brasil. Ela fala sobre sobreviver em tempos difíceis e sobre ter o chão disputado. Na letra, a fuga aparece como possibilidade imaginária quando a realidade é permanecer: não abandonar a luta, mas também não lutar sem melodia. A arte surge, então, como aquilo que é capaz de interromper o silenciamento. 

Me interessa particularmente a ambiguidade da palavra “canto”. Ela pode se referir à voz, à expressão, à música, mas também a um lugar: um canto da casa, um espaço de abrigo. No capítulo VI de A poética do espaço, intitulado justamente “Os cantos”, Gaston Bachelard compreende o canto não simplesmente como uma parte geométrica da casa, mas como espaço de recolhimento, refúgio e solidão. “Canto é um refúgio que nos assegura um primeiro valor de ser: a imobilidade”, escreve o filósofo. É no canto que o sujeito se concentra, que o ser encontra uma espécie de suspensão do mundo exterior e, protegido pelo aconchego, dá lugar ao devaneio.

O cerrado, além de evocar a imagem de um bioma constantemente ameaçado (lembrado na canção pela linda imagem da “flor que abre na queimada”), pode ter também o sentido de “obstruído”, se entendido como o particípio do verbo cerrar. Temos, assim, a imagem de um canto contido, seja a voz, seja o espaço. O título da canção reúne pelo menos três sentidos: o canto como expressão, o canto como lugar e o cerrado como fechamento. Essa sobreposição se desdobra tanto na ideia do canto como espaço onde o sujeito se recolhe para continuar sendo, quanto na ideia de continuar cantando quando o exterior se torna ameaçador. Não por acaso, Logo Ali é um disco atravessado pela experiência de um mundo em crise, lançado durante a pandemia e sob um governo de extrema direita. Mas seus sentidos não se encerram naquele contexto e Canto Cerrado reflete experiências que continuam disponíveis.

Nos últimos dias, Canto Cerrado tem me feito pensar sobre qual ideia de futuro será construída e, sobretudo, quem terá o direito de habitá-lo. Aquilo que “brota do invisível” e nos une faz a passagem do eu para o nós. O “meu lar” e o “meu chão” de que fala a canção não são lugares individuais, mas coletivos, ameaçados pela ideia de um falso futuro prometido. O canto que deve persistir, para não aceitar a lógica da catástrofe, é comunitário.

O que nos resta é o canto como lugar de permanência e como possibilidade de voz.

À esquerda: making of da capa de Logo Ali. À direita: obra de Almeida Júnior.

Essa ideia encontra uma espécie de complemento visual na capa de Logo Ali, que recria Derrubador brasileiro, de Almeida Júnior, de 1879. Um dos maiores artistas brasileiros do século XIX, Almeida Júnior foi um dos responsáveis por renovar os assuntos e personagens da pintura, introduzindo uma versão mais coerente do que se pode chamar de brasilidade. Isso se deve não apenas ao fato de se dedicar a explorar poeticamente a figura do caipira, mas ao tratamento da luz e ao modo como integra as figuras ao ambiente onde se inserem, como já apontado por Gilda de Mello e Souza. Em Derrubador brasileiro, o personagem, em posição de descanso em meio à paisagem, finca os pés descalços no chão e parece não se separar do meio que o envolve. Há uma atitude de pertencimento e de unidade entre ser humano e natureza.

Na capa de Logo Ali, Bemti assume a posição do derrubador — e, neste ponto, devemos lembrar de sua origem, a Serra da Saudade, no interior de Minas Gerais, que o conecta intimamente com a figura do caipira que vemos nas obras de Almeida Júnior. O machado que o derrubador segura com a mão esquerda é substituído, na imagem da capa, pela viola caipira, instrumento pelo qual Bemti é reconhecido e que torna o seu trabalho tão singular entre os cantores e compositores de sua geração. É justamente a sonoridade da viola que confere a Canto Cerrado uma imagem interiorana e a sensação de caminhada provocada pelo dedilhado, além de ser um marcador de brasilidade. No lugar do machado, que derruba, a viola interrompe o silêncio, evoca a resistência da melodia e conecta-se ao chão que nos pertence.

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