Artigos e ensaios, Publicações externas

Após junho de 2013: coletivos estético-políticos na guerrilha do sensível

Em junho de 2013, uma série de manifestações tomaram as ruas do Brasil. A princípio como movimentos apartidários, sem hierarquia, organizados nas redes sociais, combatendo o aumento dos preços das passagens de ônibus. Tal cenário já vinha sendo anunciado com a greve dos professores da rede pública de diversos estados em 2011 e com a greve dos bombeiros em 2012. Mas as manifestações de 2013, também conhecidas como “jornadas de junho”, conduzidas principalmente por jovens estudantes, tomaram proporções gigantescas, sendo consideradas um dos maiores movimentos políticos da história do país.

No contexto das manifestações, surgiram coletivos estético-políticos que, diferentemente dos coletivos brasileiros que se proliferaram na virada do século XXI, contaram com as redes sociais como elementos essenciais para sua articulação, servindo como instrumento de organização e troca – assim como também foram para organizadores dos protestos. Outra questão que marca a diferença entre os coletivos dos anos 2000 e os mais recentes, é que enquanto os primeiros, em sua maioria, surgiram movidos pela insatisfação com o sistema de arte, propondo meios de autogestão e modos alternativos de exposição, o que motiva os grupos mais recentes é a vontade de articulação política, seu direcionamento crítico a alvos bem-definidos, e o espírito de tomada dos espaços públicos pelo povo que se consolidou com as manifestações de 2013.

Tomando como base escritos de Jacques Rancière e Paola Berenstein Jacques, este artigo tem o objetivo discutir como as propostas desses novos coletivos estético-políticos se configuram como meios de partilhar o sensível. Com a noção de partilha do sensível, Jacques Rancière compreende que a política e a estética têm uma raiz em comum, pois ambas trabalham no regime da visibilidade, além de sua base estar no dissenso, e não no consenso. Ou seja, a essência da política não é o entendimento entre as partes, mas os conflitos, as divergências. A falta de consenso também é uma característica da arte contemporânea, que contribui com a quebra do status quo, além do fato de não haver na contemporaneidade critérios fixos para defini-la ou julgá-la. Portanto, a arte pode atuar numa “guerrilha do sensível”, como propõe Paola Berenstein Jacques, como forma de resistência e coexistência de diferenças, como mantedora ou criadora de tensões, enquanto os dispositivos de poder tentam estabelecer consensos silenciando outras narrativas e formas de existência.

Considerando essas questões, este texto aborda coletivos estético-políticos pós-jornadas de junho que tomam o espaço público como lugar do dissenso, criam ruídos na paisagem e nos meios de comunicação, alteram sua função e dão visibilidade a novas questões ou a contranarrativas.

[Texto publicado nas atas do XIV EHA – Encontro de História da Arte — UNICAMP, 2020]

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