A década de 1960 foi caracterizada por rupturas em diversos campos e por movimentos que visavam uma sociedade mais pacífica e igualitária. No Brasil, foi uma época turbulenta marcada por uma longa ditadura militar que se iniciava em 1964 e se enrijecia a partir de 1968, com o AI-5, tornando prisões, torturas e desaparecimentos parte do cotidiano nacional. Ao mesmo tempo, o Brasil viu surgir a Bossa Nova, a MPB, a Jovem Guarda, o Cinema Novo e o Tropicalismo, a cena cultural ampliava-se, apesar dos tempos de repressão. Nas artes visuais e no design, a arte construtiva dos anos 1950 ainda deixava suas marcas, mas surgia uma nova geração de artistas que adotava a arte pop como referência.

O movimento Tropicália começa a ganhar forma em 1967, a partir da instalação de Hélio Oiticica que leva o mesmo nome. Oiticica expôs a obra pela primeira vez na mostra Nova Objetividade Brasileira, no Museu de Arte Moderna do Rio. A instalação pode ser descrita como um ambiente labiríntico composto de dois Penetráveis, PN2 (1966) – Pureza É um Mito, e PN3 (1966-1967) – Imagético, associados a plantas, areia, araras, poemas-objetos, capas de Parangolé e um aparelho de televisão. Caetano Veloso se apropriou do nome da instalação para denominar o movimento que surgia naquele momento, onde a música popular e erudita brasileira e a música de vanguarda internacional se misturavam. Tropicália ou Panis et Circenses é o disco-manifesto lançado em 1968, cuja capa foi projetada pelo artista Rubens Gerchman e apresentava a abertura do universo plástico ao universo musical.

Rubens Gerchman nasceu no Rio de Janeiro em 1942 e foi um artista plástico ligado ao movimento da Nova Figuração, que após uma década de hegemonia do abstracionismo resgatava a figuração na arte brasileira, acrescentando objetos do mundo exterior e imagens da sociedade de massa, com influência da Pop Art americana em seus aspectos formais, mas trabalhando com críticas sociais e políticas.

O Tropicalismo buscou inspiração na antropofagia dos anos 1920 e tinha como intenção criar um novo produto brasileiro misturando informações vindas de fora com características nacionais. Uma de suas bases também foi a contracultura, se opondo aos valores capitalistas, ao conservadorismo e à sociedade de consumo. O movimento durou menos de um ano e meio, sendo reprimido pela ditadura e provocando a prisão e exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

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Os anos 1960 também são marcados pela expansão da fotografia e ela passa a dominar a capa dos discos da época. Em Tropicália ou Panis et Circencis a fotografia com todos os participantes do disco ocupa a maior parte do layout. Ela é colocada sobre um fundo preto e apresenta uma moldura em sua parte inferior e no lado direito com as cores verde, amarelo e azul, em referência à bandeira do Brasil. Porém a moldura não segue o formato da fotografia e tem suas pontas cortadas, formando diagonais que criam um efeito de profundidade na imagem. Essa composição também faz uma alusão às Caixas de Morar, trabalho desenvolvido por Rubens Gerchman no mesmo período, inspirada nas cenas cotidianas que ocorriam nos pequenos conjugados em frente ao seu edifício.

O título do disco é inserido na vertical com uma tipografia sem serifa e geometrizada, preenchida por listras verdes e amarelas e com um fundo azul que cria um efeito tridimensional, semelhante ao da fotografia. De um lado a palavra “Tropicália” é lida de baixo para cima e do outro “Panis et Circenses” é lida no sentido contrário. Esta composição vai contra a máxima modernista de que “menos é mais” e se aproxima da estética da arte pop e do psicodelismo, assim como os discos da Tropicália em geral. Ademais, o design da capa questiona o uso tradicional do grid e rompe com a estética funcionalista.

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A fotografia estabelece relações bem visíveis com a capa do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, lançado no ano anterior, reforçando mais uma vez o interesse dos tropicalistas pela estética psicodélica. A influência da banda britânica também pode ser sentida na capa do disco de Caetano Veloso de 1969, que é toda branca e traz apenas a assinatura do cantor, que tinha acabado de sair da prisão e não podia aparecer em público ou dar entrevistas. Em uma solução semelhante à do White Album dos Beatles, de 1968, o designer segue o caminho oposto à estética característica do Tropicalismo.

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Sobre a fotografia de Tropicália ou Panis et Circencis, Cauhana Tafarelo de Oliveira faz uma descrição detalhada em sua dissertação de mestrado intitulada O design gráfico tropicalista e sua repercussão nas capas de disco da década de 1970:

De pé, aparece Caetano Veloso, que segura um retrato da Nara Leão, em meio aos Mutantes – que, com expressão séria, seguram guitarras, uma alegoria da nova sonoridade proposta pelo grupo, a incorporação do rock. Ao lado, Tom Zé carrega uma bolsa de couro (característica do nordeste), talvez como uma alegoria também da sonoridade, que representa a junção dos ritmos nordestinos. Sentado em um banco característico de praças, da esquerda para a direita, está o Rogério Duprat, responsável pelos arranjos do LP. De pernas cruzadas, o maestro segura um penico, como se estivesse tomando chá. Aí está presente uma paródia, na medida em que esse objeto é retirado do contexto, como fez o dadaísta Duchamp. Ao lado, Gal aparece em uma pose recatada ou até humilde, como um símbolo da classe popular ou interiorana. Ao lado, Torquato Neto aparece de traje social e boina, item comumente relacionado à França. Seria uma referência às manifestações de luta que ocorriam no mesmo ano em Paris (sobretudo no Maio de 68)? À frente de todos, sentado no chão, Gil segura uma foto do Capinan. Existe aí um contraste nas vestimentas: Capinan usa uma roupa tradicional, enquanto Gil veste um traje oriental, uma possível referência ao movimento hippie (lembrando o disco dos Mutantes). (OLIVEIRA, 2014, p. 96).

A análise de Oliveira deixa claro que a fotografia é mais que uma mera ilustração dos artistas. O contraste entre as vestimentas tradicionais e a oriental, entre as guitarras e elementos nordestinos, o recurso da metalinguagem ao inserir fotografias dentro da fotografia para incluir os dois participantes que estavam ausentes naquele momento, a referência a Duchamp, que era reprocessado naquele momento pela arte pop, todos esses elementos ganham sentido dentro do projeto antropófago do Tropicalismo.

Como já citado, a fotografia foi um elemento marcante no design de capas de discos dos anos 1960 no Brasil, mas não só do Tropicalismo. Os discos da Bossa Nova ainda possuem uma linguagem modernista em suas capas, como pode ser notado nos discos de Nara Leão projetados por Cesar Villela (Nara) e por Jânio de Freitas (Opinião de Nara). Nos dois casos as soluções gráficas são muito parecidas: poucas cores, o uso da fotografia em preto e branco sobre um fundo liso, equilíbrio entre a tipografia e a fotografia e a presença de grandes espaços em branco. Já Tropicália ou Panis et Circencis e os demais discos do movimento Tropicalista seguem o sentido oposto, com muitas cores, elementos decorativos e a incorporação do psicodelismo e da arte pop, rompendo com a estética funcionalista.

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Essas características são muito nítidas na capa do primeiro disco solo de Caetano Veloso, projetado por Rogério Duarte, um dos maiores nomes do design tropicalista. Duarte mistura ilustração e fotografia, faz uso de uma tipografia notavelmente psicodélica e incorpora na ilustração a estética dos quadrinhos, muito utilizada pela arte pop, por meio de contornos fortes e do uso de retículas ampliadas.

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No mesmo período, as capas de disco da Jovem Guarda eram mais tímidas e conservadoras, com pouca criatividade em suas fotografias. Apesar de ser um movimento ligado ao mercado e ao entretenimento, com produtos projetados para gerar vendas (como calças, saias, sapatos, lancheiras e bonecos), suas capas não seguiam o mesmo arrojamento dos cenários e figurinos. Chico Homem de Melo (2008) supõe que o sucesso dos discos já poderia ser garantido, e o investimento maior era nos outros produtos. Apenas a fotografia do ídolo já bastava para que aquele público específico se sentisse seduzido a adquirir o disco.

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Já o Tropicalismo, que possui uma forte ligação com as artes visuais, trata a capa como um elemento de importância igual às músicas e o design é explorado como mais uma forma de comunicação com o grande público. O design do Tropicalismo marca a transição para a pós-modernidade e abre mão da rigidez da era anterior. É colorido, dinâmico, psicodélico, as capas de discos possuem papel expressivo e sua função supera a de uma embalagem ou de um meio de divulgação, ela é uma extensão do trabalho apresentado no disco.

REFERÊNCIAS

BARCINSKI, Fabiana Werneck. Sobre a arte brasileira: da Pré-história aos anos 1960. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes: São Paulo, 2014.

BOWES, Ernest. Rubens Gerchman e a estética do mau gosto tropical. Darandina, v. 8, n. 1. Juiz de Fora: UFJF, fev. 2016..

MACÊDO, Érika Sabino de; CHISTE, Priscila de Souza. Um percurso dialógico para a leitura da obra de Rubens Gerchman. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso, v. 11, n. 3, set. 2016.

MELO, Chico Homem de. O design gráfico brasileiro: anos 60 (2ª ed.). São Paulo: Cosac Naify, 2008.

OLIVEIRA, Cauhana Tafarelo de; QUELUZ, Marilda Lopes Pinheiro. Design gráfico tropicalista: as capas de disco no contexto do Brasil da década de 1960. IV Encontro Nacional de Estudos da Imagem. Londrina, 2013.

OLIVEIRA, Cauhana Tafarelo de. O design gráfico tropicalista e sua repercussão nas capas de disco da década de 1970. Dissertação (Mestrado em Tecnologia). Curitiba: Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2014.

SANTANA, Valéria Nancí de Macêdo. O desenho das capas de disco bossa-novistas e tropicalistas: indicação da cultura brasileira num tempo (1958-1968). Dissertação (Mestrado em Desenho, Cultura e Interatividade). Universidade Estadual de Feira de Santana, Programa de Pós-Graduação em Desenho, Cultura e Interatividade, 2013.

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