A linha pode ser aquilo que une, como a linha de costura, mas também pode ser o que isola e impõe limites visíveis ou imaginários. A linha, em seu sentido mais tradicional aplicado às artes visuais, é aquilo que estrutura e dá forma ao desenho. Há ainda a linha ferroviária, que conecta diferentes territórios e possibilita o deslocamento em massa. A linha pode rasgar, realçar, direcionar, amarrar, marcar, sustentar ou desequilibrar. A variedade de sentidos da palavra linha é evocada na exposição individual de Carlos Contente, Ao Longo da Linha do Trem, realizada no Sesc Engenho de Dentro com curadoria de Jacqueline Melo.

Contente expõe uma série de poesias visuais protagonizadas por um personagem fictício – trabalhador, de origem nordestina – em bairros do subúrbio cortados pela linha ferroviária, do município de Japeri ao bairro do Engenho de Dentro, cuja estação de trem localiza-se em frente ao espaço expositivo – acaso que se tornou parte da exposição, uma vez que o artista recomendou aos visitantes que se deslocassem para o bairro da Zona Norte por meio do transporte ferroviário. A experiência de pegar o trem para chegar ao espaço expositivo cria uma situação que não é vivenciada cotidianamente por todos os visitantes, mas é pelo artista, que mora no Méier, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. O Méier, além de ter o trem como principal meio de transporte, tem seu território dividido em duas partes pela linha ferroviária, em torno da qual concentra-se grande quantidade de estabelecimentos comerciais, camelôs e ambulantes – assim como na maioria dos bairros que possuem estação de trem. Ou seja, o cotidiano no Méier é condicionado pela linha do trem, que é ao mesmo tempo ponto de referência, divisor geográfico e beneficiadora de atividades comerciais. O trabalho de Contente surge em seus deslocamentos entre o Méier de outras localidades, atento às histórias contadas nos transportes públicos por desconhecidos, que inspiram seus personagens. A dimensão antropológica de sua série de poesias visuais produz uma sensibilidade particular àqueles que, como o artista, vivem no subúrbio e conhecem a experiência de deslocar-se de trem pela cidade. Dessa maneira, o convite para chegar ao Sesc Engenho de Dentro de trem é um convite para mergulhar no processo criativo de Contente, que não se dá totalmente no ateliê, o espaço “sagrado” da criação artística, mas também nesse lugar caótico de trânsito e encontros de corpos heterogêneos. Na arte contemporânea, de maneira geral, a ideia de ateliê se dissolve, bem como os antigos limites entre arte e exterioridades. É o que vemos, por exemplo, nos trabalhos in situ de Daniel Buren e Robert Smithson, que dispensam o ateliê como lugar de produção para executar seus trabalhos diretamente nos lugares para onde são destinados. Ou, aproximando-se mais do caso em discussão neste texto, trabalhos de dimensão antropológica, que se realizam ou se iniciam na rua, no contato com o outro, a exemplo daqueles mencionados por Hal Foster em seu famoso texto O artista como etnógrafo. Para Contente, o ateliê é o trem.

Desde 2002, o artista trabalha na diluição de fronteiras entre arte e vida. Foi nesse ano que começou a desenvolver bidimensionalmente seu conhecido autorretrato, considerado uma espécie de marca registrada, e não tardou em tirá-lo do plano e espalhá-lo repetidamente por muros da cidade por meio de carimbos e stencil, sobretudo em bairros do subúrbio. A inspiração para esse ato veio dos escritos de Rosalind Krauss e da simbiose entre arte, arquitetura e paisagem encontrada nos projetos dos artistas minimalistas e da land art. Também é antiga sua relação com histórias em quadrinhos, que antecede seu interesse pela arte contemporânea. A referência a esse tipo de narrativa é imediatamente identificada ao percorrer o olhar pela exposição Ao Longo da Linha do Trem e atentar-se para a composição dos trabalhos e a disposição dos mesmos na galeria. Os trabalhos são constituídos por desenhos, colagens, carimbos e poesias escritas, que juntos produzem cenários associados aos bairros cortados pela linha ferroviária do Rio de Janeiro. A série narra o cotidiano do humilde protagonista em sua movimentação pela cidade, e é na linha do trem, ou em seus arredores, que surgem seus questionamentos sobre a vida, angústias e amores. Como numa história em quadrinhos, cada trabalho é emoldurado e as peças são justapostas, desenvolvendo uma narrativa linear que se inicia em Japeri e se encerra em Engenho de Dentro. Dessa maneira, o artista apropria-se de uma linguagem associada à cultura de massa para narrar situações típicas de um contexto popular e marginal. Ao mesmo tempo, Contente afasta-se da composição objetiva e ordenada dos quadrinhos tradicionais para trabalhar com um processo de montagem dialética e subjetiva, onde a sobreposição e justaposição, no mesmo quadro, de imagens e palavras de diferentes contextos, propõe que o espectador crie suas próprias conexões, interpretando e completando as narrativas apresentadas à sua maneira, atravessado por sua relação afetiva com os espaços mencionados e com a linha do trem.

A figura do trabalhador, sobretudo o ambulante, é a mais recorrente na série Ao Longo da Linha do Trem. O trem não apenas é o meio de transporte que mais comporta a classe trabalhadora residente em áreas periféricas, como também é o meio de sustento de um grande número de trabalhadores em situação informal, que comercializam nos vagões uma variedade surpreendente de objetos e alimentos. Portanto, a imagem da linha ferroviária é imediatamente associada à dura rotina do trabalhador suburbano, sendo em menor parte do tempo utilizada para momentos de lazer e entretenimento, como os dias de partida de futebol no Maracanã e o evento anual Trem do Samba, que transforma temporariamente o trem em um lugar de festa – o total oposto do propósito real desse meio de transporte. É paradoxal um trabalho tão poético, como o de Contente, surgir nesse ambiente condicionado pelo trabalho produtivo. Tal dado evidencia a sensibilidade do artista e afirma a papel da arte como questionadora dos papéis distribuídos na sociedade.

Contente nos convoca a um percurso sensível que tem início no deslocamento físico por meio da linha ferroviária e desdobra-se nos trajetos de nosso olhar através de sua série de narrativas suburbanas. A série Ao Longo da Linha do Trem salienta a dimensão subjetiva de espaços tradicionalmente ligados à objetividade e à produtividade, quando a relação afetiva dos corpos com esses lugares possibilita sua ressignificação. Quando o artista nos convida a pegar o trem para ver uma exposição, ele também reconfigura esse espaço. As linhas – do trem, do desenho, da cartografia – conduzem o corpo o e olhar, costuram a afetividade do espectador no imaginário produzido pelo artista e realçam sua sensibilidade diante dos lugares do cotidiano e das histórias de luta, de dor e de amor que eles podem testemunhar.

2 comentários em “Ao longo da linha do trem

  1. Tive uma experiência incrível de aproximação afetiva das estações alinhavadas pela arte de Contente. A sensação de contato, o sentir perto o que está longe. Eu visitava as estações ou elas me visitavam? Deixar de ser estrangeiro na própria cidade, outra possibilidade. As estações e as linhas carregadas de densidade existencial, me tomaram. Carlos Contente resignifica com sua arte o cotidiano sofrido e poético ” ao longo da linha do trem”. Eu amei!

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