A figura do artista, ao longo de grande parte da história da arte, é a de um trabalhador à serviço do poder. Mesmo ao ascender socialmente no Renascimento, distinguindo-se do artificie, a produção artística continuava condicionada às encomendas do clero, da burguesia e da aristocracia. Foi só com o espírito de liberdade do século XVIII e o surgimento da estética que o artista ocidental pôde considerar-se livre e a arte afirmou-se como um campo autônomo, sem funções pragmáticas a priori. Entretanto, dentro da economia capitalista que se consolidou, a arte transformou-se em commodity e entrou para o círculo do mercado, alimentado pelo fetiche do “novo”, do “original”, da “vanguarda”. Considerando que a arte está na divisão social do trabalho, quando Marcel Duchamp concebeu seus primeiros ready-mades na década de 1910, além de questionar os limites da arte e os juízos de gosto, podemos afirmar que ele realizou uma ação ociosa, recusou ao trabalho e, consequentemente, recusou produzir para o mercado. O ready-made não é criado pelas mãos do artista, mas escolhido entre objetos já existentes, e as escolhas de Duchamp eram restritas a objetos “visualmente indiferentes”, como o urinol que tentou expor em um salão em 1917. Dessa maneira, o ato ocioso de Duchamp não satisfazia um desejo estético e tampouco o fetiche pela unicidade e originalidade do objeto artístico.

Marcel Duchamp, Fonte, 1917

A partir dessas relações entre arte, trabalho e ócio pode-se conferir alguns sentidos a “Queria um pincel, ganhei uma vassoura”, de Mulambö. A antítese apresentada no título do trabalho sinaliza o lugar do artista em um contexto periférico e indica a busca por uma atividade estética que é reprimida por uma condição que lhe impõe o “trabalho produtivo”. O trabalho de Mulambö é constituído por uma vassoura que é tingida de vermelho e adquire a forma de um tridente. Símbolo da servidão, o objeto apropriado pelo artista torna-se uma alegoria do poder e da resistência ao sofrer essa interferência.

A apropriação da vassoura como um ready-made por Mulambö configura, assim como a ação de Duchamp, uma recusa ao trabalho, mas com sentido distinto. Em seu caso, a recusa se dá pela apropriação do próprio objeto de trabalho que culturalmente lhe é imposto e sua transformação em um objeto distinto por meio de um ato simbólico. Esse processo associa-se às ideias expostas por Michel de Certeau no livro Invenção do Cotidiano, onde o autor fala sobre táticas criativas adotadas pela cultura popular por meio de textos e artefatos que a rodeiam, transferindo a ênfase das representações em si para os usos das representações. Michel de Certeau reflete sobre uma estética da apropriação adotada pelo usuário rebelde, como, por exemplo, indígenas que faziam outros usos das ações rituais impostas pelos colonizadores espanhóis (no contexto brasileiro colonial poderíamos citar o sincretismo religioso realizado pelos negros escravizados).

Mulambö, Pedi um pincel, me deram uma vassoura, 2018.

Ainda assim, parece-me insatisfatório considerar “Queria um pincel, ganhei uma vassoura” simplesmente um ready-made. A fim de aproximar a tática de apropriação de Mulambö a um contexto mais próximo, sobretudo ao da periferia, podemos pensa-la a partir do conceito de gambiarra, considerada popularmente um desvio ou improvisação aplicado ao uso de dispositivos, objetos e espaços antes destinados a outras funções. Esse termo, que possui forte sentido cultural no Brasil, flerta com a precariedade, a inventividade e a ilegalidade, possuindo ainda o elemento da imprevisibilidade. Ao associar o trabalho de Mulambö à lógica da gambiarra, reforçamos um sentido que diz respeito à busca de indivíduos de origens periféricas por alternativas para a realização de uma atividade estética, “improdutiva”, bem como um espaço no circuito de arte. Diante da falta de recursos, deve-se jogar com as possibilidades à mão e é a isso que se propõe Mulambö ao transformar um instrumento de serventia em um objeto artístico, o oposto do que ele é ou poderia produzir se limitado à função que lhe era destinada.

A gambiarra afirma-se como uma prática política ao negar a lógica produtiva capitalista e sanar uma precariedade de outra natureza. O trabalho de Mulambö reivindica uma pulsão estética, a libertação da arte diante do trabalho produtivo e, sobretudo, um lugar não subserviente para corpos periféricos.

Texto publicado originalmente no catálogo da exposição “Andando na história do meu povo”, realizada na Galeria Gustavo Schnoor (Uerj) com curadoria de Aldones Nino

Sobre o artista:
Crescendo entre Saquarema e São Gonçalo, Mulambö trabalha sobre as referências do subúrbio do RJ. Sua trajetória como artista em cidades sem dispositivos de cultura influencia na sua pesquisa ao se utilizar de materiais encontrados na rua, como madeira e papelão ou no âmbito digital com fotos que registram a vida e o cotidiano do existir periférico no Rio de Janeiro. Ressignificar símbolos e discursos, valorizar e trabalhar identidade e representatividade.

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