A diluição de fronteiras entre arte e cotidiano é uma das principais marcas do trabalho de Carlos Contente. Esse processo se dá de duas maneiras: quando o artista replica sobre os muros da cidade seus trabalhos, por meio de carimbos e estênceis (prática que realiza desde 2002), ou quando Contente, fazendo o caminho inverso, leva a cultura visual das ruas e das mídias de massa para a galeria, como é o caso desta exposição.

Faixa Marielle, Marighella, Dandara e Paulo Freire, 2019

Humor e ironia, que também são características marcantes de sua produção, se manifestam desde o título da mostra: Só Love. O público, ao entrar na exposição e se deparar com imagens de violência e revolta, pode se sentir traído por seu título. Neste caso, qualquer semelhança com o Brasil atual e o fenômeno das fake news não é mera coincidência. O recorte apresentado por Contente, com trabalhos que datam de 2013 até este ano, é condicionado pela virada sentida em diversos campos após as Jornadas de Junho. De 2013 para cá, grandes transformações ocorreram não apenas no cenário político nacional, mas também na cultura visual – afetada pela crescente popularização das mídias sociais – e na arte – que cada vez mais tem se confundido com atuação política. Dessa maneira, é difícil olhar para os trabalhos de Contente e não lembrar-se dos cartazes presentes nas manifestações, das imagens que circulam na internet, ou das frases pixadas nos muros ou exclamadas pelas vozes da população.

Anti sistema, anti capitalismo, anti racismo, 2019

Dentro das manifestações visuais que interessam ao artista, há ainda a história em quadrinhos, meio com o qual Contente trabalha desde a década de 1990 e, nesta exposição, é representado por uma edição da série “Claudinho e Adolfo”. A história tem como protagonista o europeu Adolfo Himmler, um assumido neonazista que viaja ao Brasil para fazer “turismo de atrocidades”. Adolfo é a típica figura do estrangeiro que chega ao Brasil em busca do “exótico”, mas ao invés de belezas naturais e pontos turísticos, segue um roteiro que, embora atípico, o leva a testemunhar a realidade vivida pela maior parte dos brasileiros. O absurdo fascínio do estrangeiro pela violência diz muito sobre nossa maneira de lidar com a mesma, transformando-a em produto consumido em forma de imagem por meio de telejornais sensacionalistas, mídias sociais e outros dispositivos de comunicação. Dessa maneira, Contente propõe um exercício de anacronismo, na medida em que seu personagem fictício (mas não tão distante de nossa realidade) encontra no atual contexto brasileiro situações condizentes com a Alemanha da primeira metade dos anos 1940, e chama atenção para a sobrevivência de aspectos autoritários através do tempo. Criando situações absurdas e lançando mão do exagero, a narrativa de Contente adota o humor como meio de ridicularizar opressores.

Claudinho e Adolfo em uma aventura baiana, 2016

Só Love é uma exposição sobre imagens e visualidade, sobre as práticas cotidianas de ver e mostrar. Contente apresenta trabalhos contaminados pela cultura visual contemporânea, contrabalançando humor, denúncia e memória, de modo a ativar nosso olhar crítico para a atualidade e aquilo que nos cerca.

[Texto curatorial da exposição individual “Só Love”, de Carlos Contente, realizada entre 24 de outubro e 28 de novembro na Galeria Candido Portinari, na Uerj]

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