Críticas

Duas visões sobre a figura feminina no espaço do ateliê em 1884

Almeida Júnior e Abigail de Andrade: duas visões sobre a figura feminina no espaço do ateliê. Ambas apresentadas com sucesso na Exposição Geral de Belas Artes de 1884.

 “O descanso do modelo”, de Almeida Júnior, foi louvado pela crítica por sua naturalidade e graciosidade. Seu sucesso marca uma mudança de gosto no público carioca, antes excitado por cenas de batalhas e de grandes efemérides, agora se interessa mais por cenas íntimas e “verdadeiras”, que, além disso, estimulem sua imaginação, convidando-o a interagir e completar a cena pintada – como sugere a pesquisadora Ana Cavalcanti em um artigo sobre a EGBA de 1884. Não vemos a tela abandonada pelo pintor, nem ouvimos o som da música, nem temos a visão frontal da figura feminina nua. Há uma mudança de papéis: a modelo, que toca o piano, coloca-se na posição de artista, enquanto o pintor pausa sua atividade para contemplá-la. Ainda assim, ela não deixa de ser uma “musa” ou objeto de um voyeur masculino. Compreendemos que a situação é temporária, um momento lúdico, de descontração.

Almeida Júnior, O descanso do modelo, 1884. Museu Nacional de Belas Artes.

“Um canto em meu ateliê” é uma autorrepresentação de Abigail de Andrade, que na EGBA de 1884 tornou-se a 1ª mulher a conquistar uma medalha de ouro. Vemos um conjunto de elementos no cenário que evidenciam o desejo da artista de mostrar seu treinamento e profissionalismo: esculturas utilizadas para estudo da anatomia, materiais artísticos e uma série de pinturas. Para a pesquisadora Cláudia de Oliveira, “o que está em questão nesta tela é a mulher se afirmando como indivíduo e artista. Nem mesmo o seu rosto, que comporia a sua linda aparência feminil, está em evidência – a artista está de costas para o observador, como a mostrar que sua preocupação não é representar a mulher, mas a artista junto aos seus objetos em seu ateliê, os quais ali estão dotados de uma função: mostrar o treinamento da artista. Portanto, Abigail, nesta tela, não está confinada à posição de modelo ou musa do artista, não é objeto, não é ícone, não é motivo ou tema. Ela é sujeito”.

Abigail de Andrade, Um canto no meu ateliê, 1884. Coleção particular.

Referências:
Ana Cavalcanti, “A Noite de Pedro Américo e O descanso do modelo de Almeida Júnior no Salão de 1884”, publicado nos anais da ANPAP de 2014.
Cláudia de Oliveira, “Cultura, história e gênero: a pintora Abigail de Andrade e a geracão artística carioca de 1880”, publicado no site dezenovevinte.net

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