Estela é o termo utilizado pela arqueologia para designar monumentos monolíticos onde civilizações antigas faziam inscrições ou esculturas em relevo, geralmente funerárias ou de praxe ritual, política, comemorativa, territorial, etc. Estelas funerárias remontam a diversas culturas antigas ao redor do mundo, como os egípcios, gregos, romanos, maias ou incas. Ao serem colocadas sobre os túmulos, acreditava-se garantir o bem-estar do morto e lembrar aos vivos os seus feitos, por isso são importantes fontes de conhecimento da história dessas civilizações. Contudo, esses monumentos geralmente dedicavam-se à história dos vencedores, à memória dos grandes nomes.

Matheus Rocha Pitta, artista mineiro radicado no Rio de Janeiro, reverte essa situação ao apresentar no foyer do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro um conjunto estelas que trazem à memória os esquecidos, ou aqueles a quem nos tentam fazer esquecer. Na exposição Memória Menor, curada por Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes, o artista apresenta três monumentos de concreto aos quais são sobrepostos recortes de jornais que relatam episódios de violência ocorridos nos últimos cinco anos no Rio de Janeiro: o caso de Amarildo, ajudante de pedreiro assassinado pela polícia; o caso do menor negro amarrado a um poste após ser espancado na rua sob acusação de roubo e, por fim, a prática da Polícia Militar de divulgar imagens de detentos vestindo símbolos de identificação da corporação.

Documentos e monumentos são dois tipos de materiais que imortalizam a história e a memória. No texto Documento/Monumento, que integra o livro História e Memória, de Jacques Le Goff, o autor afirma que todo documento é instrumento de poder, uma vez que é manipulado e conservado pelas sociedades com o esforço de impor ao futuro determinada imagem de si. Já o monumento, segundo o historiador, é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação. Há um hibridismo entre documento e monumento nas estelas antigas, considerando que são também importantes fontes históricas. Contudo, a história que nos permitem conhecer é a dos detentores de poder, ideologicamente construída por aqueles que confeccionaram as peças. No trabalho de Matheus Rocha Pitta, ao substituir imagens de faraós e imperadores por notícias de jornais, que também são documentos, há a elevação de um material banal, usualmente descartado, ao estatuto de monumento, e rememora-se aqueles cujas vidas são igualmente banalizadas e descartadas com facilidade.

A exposição ressalta a necessidade de se refletir sobre a história recente do Brasil, e em particular a do Rio de Janeiro. Os três casos de violência discutidos trazem questões que estão em pauta atualmente, como a violência policial, a discriminação racial e os direitos humanos. A execução da vereadora carioca Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, menos de duas semanas após a abertura da exposição, trouxe à tona esses assuntos e marcou o retorno das grandes manifestações nas ruas do país.

O recorte cronológico abordado pelo artista remonta ao que talvez seja a gênese do momento histórico que vivemos no Brasil: os protestos de junho de 2013. Desde então, os eventos que se sucederam modificaram completamente a configuração política do país. O assassinato de Marielle e de Anderson, assim como os casos de violência rememorados por Matheus Rocha Pitta, são sintomas do tempo sombrio que vivemos. Refletir e debater sobre esse momento histórico, que continua em aberto, é um desafio necessário. Diante da grande quantidade de notícias e informações a que somos submetidos diariamente, recordar é um exercício fundamental.

Matheus Rocha Pitta cria lugares de memória a partir de cacos desse passado recente. Esses fragmentos, vestígios da existência de pessoas comuns, são acumulados e reorganizados pelo artista, que trabalha como um arqueólogo. Notícias que causam comoção quando lidas nos jornais, mas que logo são esquecidas e encobertas por tantas outras, resistem nas peças de concreto de 1,80m de altura. A duração das frágeis páginas de jornais é estendida e as imagens que carregam proporcionam o encontro do agora com o outrora, levando o público a criar conexões com o momento presente.

 

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