O trabalho de Cristina de Pádula é processual, mutável e encara o tempo como elemento fundamental para sua construção, que se dá por meio da destruição e reaproveitamento da matéria. Em sua exposição individual realizada no Paço Imperial, com curadoria de Cezar Bartholomeu, a artista apresenta a instalação aqui, não – que também dá título à exposição –, composta por objetos geométricos e placas de madeira retangulares tingidas com parafina preta, além de fragmentos de trabalhos antigos destruídos pela artista, que são aglomerados, dando corpo a uma nova instalação por meio da experiência constante de destruição e reconstrução, realizada pela artista há mais de 20 anos.

O título da instalação já sugere grande negatividade, como lembra Cezar Bartholomeu em seu texto curatorial. Todos os objetos que a compõem são impregnados pelo pigmento preto, que se configura como uma não-cor, dando à matéria aparência de cinzas, de algo que se perdeu, e tal caráter mórbido é reforçado pela horizontalidade das placas dispostas paralelamente ao chão. A horizontalidade do escultórico é tratada por Rosalind Krauss no texto Escultura no campo ampliado, que, assim como a instalação de Cristina de Pádula, possui tom negativo ao definir escultura a partir daquilo que ela não é (a soma da não-arquitetura com a não-paisagem ou, considerando o que a crítica chama de “campo ampliado”, a soma da arquitetura com não-arquitetura ou da paisagem com não-paisagem), uma vez que, com o pós-modernismo, o termo escultura tornou-se cada vez mais difícil de ser definido e pronunciado e, portanto, tal conceito deve de ser alargado. Para Krauss, a escultura se desvencilha da ideia de monumento ao perder gradativamente suas principais características: o pedestal, a figuratividade e a verticalidade. Mas monumento, para além dessas atribuições formais, também se define como uma herança do passado, aquilo que traz sua memória para o presente e a projeta às gerações futuras. Sendo assim, o trabalho de Cristina de Pádula é paradoxal ao se desvencilhar do conceito formal de monumento, mas não de sua função, na medida em que a artista resgata fragmentos do passado, através de resquícios de trabalhos destruídos, e os faz sobreviver em novas instalações, tomando dimensão indicial.

Tal memória, contudo, é também fragmentada. Muitos cacos, ao se misturarem a outros, tornam-se irreconhecíveis, sua origem é um mistério. A instalação ganha caráter anacrônico ao aglomerar diversas temporalidades e atualizá-las na configuração de uma nova obra. O trabalho de Cristina é processual, impermanente, transitório, sobrevive ao se reconfigurar, mas nunca será o mesmo. Sabe-se que as placas dispostas horizontalmente no chão um dia serão cacos que irão compor outra instalação, assim como outros dois objetos geométricos dispostos entre elas, os únicos elementos da instalação onde pode-se encontrar alguma verticalidade. Tais objetos assemelham-se a pequenas escadas, embora possuam apenas três degraus e não levem a lugar algum, assumindo a negatividade que compõe toda a instalação. Não-cor, não-escultura, não-escada, não-objeto, aqui, não encara a negatividade, mas fala da perda como possibilidade de reconstrução, da destruição que na verdade é metamorfose.

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Não é difícil criar associações entre o trabalho de Cristina de Pádula e o Minimalismo. Contudo, se os minimalistas se posicionavam contra a gestualidade do Expressionismo Abstrato, o gestual se faz presente no trabalho de Cristina, seja no ato de destruir e reconfigurar suas obras, ou na instalação Desenho-Circular, em que a artista aglomera centenas de desenhos amassados, que se desdobra no vídeo Ao cabo de alguns segundos tudo recomeça, onde se vê apenas seus pés e mãos, que parecem buscar algo dentro daqueles papéis, mas não se sabe exatamente o quê. Seus pés descalços, que caminham sobre os entulhos, assim como o movimento de suas mãos ao revirar aquela matéria, ativam o elemento sonoro do trabalho, cujo ritmo aumenta gradativamente e assinala a tensão de seu corpo errante. Mais uma vez a artista joga com a memória e a ideia de reaproveitamento ao tentar encontrar alguma coisa naqueles resquícios do passado. O mesmo mistério que envolve toda a exposição é reforçado aqui pelo ato performativo, assim como a série de fotografias Incidente-nicho, que apresenta registros de uma estante derrubada com a matéria negra, cujo enquadramento tornaria seu conteúdo irreconhecível, se não fosse pelo vídeo Incidente, exposto no final da sala, que apresenta a artista em mais um gesto performativo, ao derrubar o que se indica ser a estante presente nas fotografias.

Cinzas, índices, resíduos, gestos configuram o espaço criado por Cristina de Pádula no Paço Imperial. Nesse exercício de anacronismo e sobrevivência, o que se perde, o que se destrói, sempre se reconfigura em um novo objeto, seja por meio do resgate de seus fragmentos ou da captura de sua imagem.

Um comentário em “A experiência da destruição como metamorfose

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