O cantor Nego do Borel causou polêmica na internet há algumas semanas, após demonstrar apoio ao deputado Jair Messias Bolsonaro, conhecido por seus discursos homofóbicos, racistas e machistas. Ontem (09/07) surpreendeu novamente ao lançar o clipe “Me Solta”, onde aparece travestido de mulher e beijando um homem. A proximidade entre as duas ações reforça sua contradição e levanta questionamentos sobre a real intenção do cantor, que é acusado de oportunismo e de explorar a comunidade LGBT para conquistar holofotes. A discussão sobre este caso poderia ir muito além disso, mas vamos primeiramente à análise do vídeo:

O clipe começa com uma típica vista panorâmica do Rio de Janeiro, tendo como centro o Morro do Corcovado, que abriga o maior monumento turístico da cidade. Mas rapidamente a imagem é substituída pela de outro morro: o Morro do Borel, onde o cantor cresceu e que dá origem a seu nome artístico. Após essa visão panorâmica da comunidade, a câmera penetra em suas ruas e focaliza grafites que afirmam o afeto pela favela e manifestam o orgulho dos moradores por seu território. Em seguida, surge Nego do Borel vestindo roupas femininas, em uma atuação demasiadamente caricata, que ridiculariza travestis e transexuais.

O cantor utiliza um megafone para acordar a comunidade e anunciar um baile funk, naquela hora e lugar, e imediatamente inicia-se uma espécie de flashmob. As ruas são tomadas pela música, o clima é de festa e alegria. Diversos corpos se misturam e ocupam coletivamente o espaço público através da dança. Essas cenas são contagiantes e constituem um dos poucos aspectos positivos do clipe.

Nego do Borel se junta aos dançarinos e permanece utilizando roupas femininas, ainda sem qualquer motivo aparente. Também é gratuitamente que na metade do vídeo o cantor beija um homem e em seguida o empurra. O mesmo homem é visto em outros momentos tentando se aproximar de Nego do Borel e sendo rejeitado pelo cantor, que exclama o refrão da música: “me solta, porra”. Nego do Borel parece tentar incorporar a figura da mulher feminista e empoderada, que afirma o direito sobre seu corpo, mas o resultado é extremamente caricato e vergonhoso, além de apontar para uma grande hipocrisia, uma vez que seus clipes anteriores comumente objetificam os corpos das mulheres que são exibidas ao seu redor.

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Após o beijo, as cenas seguintes mostram o anoitecer no Morro do Borel, o que indica que a festa durou um dia inteiro. O cantor deixa os trajes femininos e aparece vestindo uma calça, sem camisa, dançando no meio de quatro mulheres, em afirmação à sua masculinidade.

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O clipe poderia ser um manifesto de amor e orgulho pelo Morro do Borel, como dá a entender os grafites que aparecem em suas primeiras sequências. Poderia ser também sobre o poder de contágio do funk e sua legitimação como manifestação cultural. Poderia romper com o estigma da favela como lugar da violência e pobreza, afirmando-a como território da festa, da coletividade, da diversidade cultural. Talvez ele fale sobre tudo isso. Mas o que motiva Nego do Borel a utilizar roupas femininas e a beijar um homem? O que isso acrescenta ao conteúdo do vídeo?

A ascensão dos movimentos de direitos LGBT têm chamado a atenção de empresas e figuras públicas, que enxergam aí um novo nicho de mercado. O chamado pink money é essa tentativa de lucrar através da imagem da comunidade LGBT sem que haja de fato representatividade ou empatia com esses grupos. Um exemplo são empresas que têm utilizado casais homossexuais em suas propagandas para conquistar um novo público, mas contratam apenas heterossexuais e cisgêneros e não promovem qualquer ação real contra a discriminação a sexualidade e gênero, mesmo em seus ambientes corporativos.

É paradoxal que no país que mais mata travestis e transexuais, uma das cantoras de maior sucesso atualmente seja uma drag queen. O sucesso de figuras como Pabllo Vittar, Lia Clark e Mulher Pepita tem feito com que outros artistas tentem pegar carona nessa onda de empoderamento LGBT. Nego do Borel é apenas um deles, mas poderia ser levantada uma lista extensa, que pode ficar para um outro texto.

O caso de Nego do Borel aponta para duas questões graves: a justificada revolta da comunidade LGBT, de um lado, e a fúria de seus fãs cisgêneros heterossexuais, do outro. O mise en scène criado pelo cantor revoltou tanto LGBTs quanto homofóbicos, que compõem uma parcela de seus fãs e se decepcionaram ao verem seu ídolo beijar um homem. Portanto, além do oportunismo disfarçado de empatia, é importante debater sobre os discursos de ódio suscitados pelo beijo, que demonstram como o mundo do funk ainda é machista e opressor para LGBTs, embora esses grupos estejam conquistando gradativamente mais espaço nesse meio.

“Me Solta” é mais um caso de tentativa fracassada de representação sem qualquer representatividade, e que devido ao histórico de seu autor, torna-se ainda mais revoltante. O problema vai além do fato de Nego do Borel apoiar uma figura política assumidamente machista e homofóbica. A construção de um personagem caricato, a tomada descuidada de um lugar de fala que não lhe pertence e a inserção gratuita de situações que nada acrescentam à narrativa do clipe, mas só servem para “lacrar”, ou melhor dizendo, lucrar, somam a esse dado e contribuem com a recepção negativa do vídeo pela comunidade LGBT.

Um comentário em “Lacre ou lucro: quando o oportunismo se disfarça de empatia

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