Na noite de 10 de maio de 1933, uma multidão se formou na Opernplatz (atual Bebelplatz), em Berlim, para a realização de um grande evento conduzido pelos nazistas: a queima de cerca de 20 mil livros. Entre os autores-alvo dessa ação furiosa estavam Sigmund Freud, Karl Marx, Albert Einstein, Franz Kafka, Rosa Luxemburgo, Bertolt Brecht, Walter Benjamin, Marcel Proust, H. G. Wells e muitos outros, considerados inimigos políticos, representantes de etnias minoritárias ou de modos de pensar e viver diferentes. Esse ato de “purificação” da literatura, intitulado “Ação contra o espírito não-alemão”, foi transmitido ao vivo pelo rádio e filmado para depois ser exibido nos cinemas do país. Estava dada a largada para a perseguição dos autores considerados “degenerados” e, com a expansão do território alemão pelos países vizinhos, os livros “não-alemães”, ou considerados “impróprios”, quase desapareceram por completo. Bibliotecas e livrarias foram devastadas.

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Alguns anos após a reunificação da Alemanha, em 1995, o artista israelense Micha Ullman foi convidado para construir um monumento em memória aos livros que ali foram queimados. Exatamente no mesmo lugar onde foi instalada a pira que queimou milhares de obras literárias, o artista inseriu no chão, em meio aos paralelepípedos, uma placa de vidro transparente, através da qual é possível ver uma sala subterrânea escavada por Ullman, onde há várias estantes vazias. “A biblioteca vazia – um memorial à queima de livros pelos nazistas” nos lembra o vazio deixado pelo ato de 10 de maio de 1933. Diferentemente dos monumentos tradicionais, verticais e colocados sobre pedestais, conduzindo nosso olhar para cima, o (anti)monumento de Ullman nos faz olhar para baixo, da mesma maneira que olhamos para uma sepultura. O espectador é forçado a curvar-se e movimentar-se para apreender o espaço subterrâneo. Seu trabalho é produzido pelo ato de escavar, de maneira semelhante aos artistas da Land Art, mas ainda mais próximo ao ofício do arqueólogo, que escava para trazer ao presente vestígios do passado.

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O ato dos nazistas, apoiado por alguns estudantes e por uma parcela da população, funcionou como uma estratégia homogeneizadora e consensual. Formas de pensamento que contribuíssem com o dissenso e ameaçassem o status quo deveriam ser abolidas. O extermínio literário, mais do que a negação do conhecimento, foi uma maneira de exterminar simbolicamente aqueles considerados inimigos do regime nazista e todas as formas de diferença (religiosa, étnica, sexual, epistemológica, etc.). O vazio no trabalho de Micha Ullman rememora o vazio deixado pela queima dos livros e pelas demais ações conduzidas pelos nazistas. A ausência e o silêncio evocado pelo (anti)monumento trazem à memória aqueles que foram calados.

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A arqueologia de Ullman, portanto, se dá pela ausência do objeto que se quer desenterrar. O artista escava, mas não recupera aquilo que foi perdido. Ele nos faz refletir sobre os danos irrecuperáveis que podem ser provocados quando se quer abolir formas de pensamento e conhecimento. Ao olhar para baixo e observar a biblioteca vazia, somos assombrados pela memória do passado.

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