Desde que podemos falar de um regime estético da arte, que se dá com o advento da modernidade – segundo a tese de Jacques Rancière -, a arte liberou-se não apenas de sua qualidade retórica, como também de qualquer regra específica e de hierarquias de tema e gênero. A arte assume-se como um campo autônomo, autossuficiente, sem compromisso com o mundo exterior. Clement Greenberg, no famoso texto Pintura modernista, elucida essa ideia quando afirma que “enquanto diante de um grande mestre tendemos a ver o que há no quadro antes de vê-lo como pintura, vemos um quadro modernista antes de mais nada como pintura”.

Se um dia a arte recebeu a missão ensinar aos iletrados as passagens da Bíblia (Idade Média), persuadir fiéis (Barroco), criar elos entre o sagrado e o profano (ícones bizantinos) ou perpetuar a imagem de personagens ilustres por meio de retratos e monumentos, a partir da modernidade não há uma função específica que lhe possa ser atribuída. Isso não quer dizer que a arte deixa de assumir compromissos políticos e sociais, o que observamos nos programas das vanguardas modernas e na infinidade de artistas engajados da contemporaneidade. Entretanto, mesmo essa arte engajada não se sustenta apenas por sua potência retórica, mas também por seu valor estético e, sobretudo, por possibilitar diferentes leituras e experiências, uma vez que atua num terreno de liberdade. Deve-se considerar não apenas o conteúdo visível do objeto artístico, mas o que ele nos dá a ver. Política e estética, portanto, encontram uma afinidade na capacidade de gerar dissenso, de questionar o status-quo. Ambas interrogam as certezas partilhadas por uma comunidade.

A arte não possui função pragmática ou utilitária e essa é uma das razões de causar tanto desconforto num mundo que preza cada vez mais pela objetividade. Ao se deparar com trabalhos de arte contemporânea, uma parcela do público questiona as intenções do artista, o que ele quis dizer, como se a obra pudesse ser convertida em palavras. Contudo, o acesso à arte se dá, muitas vezes, não pelas vias da racionalidade, mas pelos sentidos e pela experiência diante dela, ignorando-se a ideia de verdade absoluta. Esse é também um dos motivos que fazem os cursos universitários de artes, assim como as ciências humanas em geral, sofrerem com cortes orçamentários mais do que aqueles cursos que, como alguns acreditam, “trazem retorno imediato à sociedade”, como as áreas de saúde, tecnologia e ciências exatas. Tal dado aponta para a ignorância acerca do impacto positivo que as ciências humanas e as artes têm na sociedade, que não é quantificado em salários.

Esses cortes orçamentários e todo o cenário que põe em risco o ensino superior público e gratuito no Brasil levaram multidões às ruas em diversas cidades do país nas manifestações dos dias 15 e 30 de maio de 2019. Para o segundo ato, o Atelier Sanitário, do Rio de Janeiro, contou com o apoio de Gustavo Speridião para organizar uma produção coletiva de faixas de protesto, que contou com a colaboração de artistas, amigos e pessoas atraídas pela convocatória pública disparada nas redes sociais.

Gustavo Speridião, Amanhã manifestação, 2014

O trabalho de Gustavo Speridião não pode ser dissociado de sua trajetória como militante. Sua produção é atravessada pelos gritos das ruas, pelas inscrições nos muros da cidade e pelos cartazes de manifestações, o que sinaliza que seu processo criativo não é circunscrito a seu ateliê, mas se dá sobretudo nas ruas, sempre atento às urgências. Amanhã manifestação, trabalho produzido em 2014, com letras vermelhas grafadas sobre uma grande lona branca, funciona como um chamamento. O artista é conhecido por executar pinturas em grandes dimensões que, em algumas ocasiões, limitam-se a palavras escritas ou frases de ordem, que contrastam com o fundo branco da lona. Em Amanhã manifestação, quase toda a superfície é preenchida pelas palavras vermelhas, não restando espaço para elementos figurativos, decorativos ou que conduzam a uma profunda divagação teórica. Em primeira instância, o artista parece não desejar nada além de comunicar uma mensagem de forma direta, como as pichações e os cartazes de manifestações. Seu tom poético é salientado pela repetição. O trabalho esteve exposto durante sete meses na mostra Arte Democracia Utopia – Quem não luta tá morto, no Museu de Arte do Rio, e durante esse longo período parecia diariamente convocar o público a um ato. Lembrava-nos que amanhã e depois deverá haver manifestação. Embora imutável, a mensagem jamais de esgotou. Seu significado atualizou-se constantemente de acordo com o que ocorria no mundo e com a imaginação daqueles que se colocavam diante dela.

Assim como a militância política atravessa o trabalho artístico de Speridião, o contrário também ocorre. A estética de seus trabalhos é emprestada às grandes faixas que o artista produz para levar às manifestações. Daí surgiu a ideia de convocar artistas para produzirem coletivamente grandes faixas, com cerca de 5 metros de largura, no Atelier Sanitário. O processo se deu a partir do levantamento de dezenas de frases e imagens que posteriormente foram elencadas para estampar quatro faixas e um grande número de cartazes, que foram distribuídos aos manifestantes no dia 30 de maio. O que mais chama atenção nas frases que nasceram ao longo do processo criativo é sua não-objetividade. Grande parte delas possuem uma dimensão poética que se distancia da linguagem direta e objetiva das frases que geralmente estampam as faixas e cartazes em manifestações. O principal exemplo é a frase “Nada será como depois”, grafada em uma das grandes faixas. A frase evoca diferentes sentidos, nunca se fecha, provoca o observador a pensar e não apenas deglutir uma mensagem. Como um bom trabalho artístico, mais do que uma mensagem pragmática, a faixa não diz respeito ao visível, mas ao que ele dá a ver. Ela produz a síntese entre o político e o estético.

Produção de faixas com Gustavo Speridião no Atelier Sanitário

Atuando simultaneamente em diálogo e confronto com o campo da publicidade, a dupla Poro (formada por Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada!), de Minas Gerais, adota uma tática similar ao apropriar-se da lógica da publicidade e de seus dispositivos para criar anúncios que não vendem um produto ou serviço, mas adotam um tom poético e estimulam o pensamento crítico dos observadores. A dupla, cujo trabalho caracteriza-se pela realização de intervenções urbanas e ações efêmeras, propõe uma ocupação poética e crítica do espaço urbano ao produzir Faixas de anti-sinalização, que proclamam frases como “perca tempo”, “desligue sua TV”, “verde-se”, “atravesse as aparências”, “veja através” e “desenho é risco”. Penetrando nas ruas em meio ao excesso de publicidade, essas faixas provocam ruídos por se distanciarem da lógica capitalista que fundamenta as demais informações visuais que as rodeiam.

Um semelhante ruído é causado pela faixa Nada será como depois, quando erguida na manifestação entre tantas outras que estampam frases pragmáticas. Duchamp também provocou um ruído quando tentou expor um urinol em um salão de arte em 1917. Desde então, mais do que nunca, pode-se afirmar que a arte nunca deve gerar consenso. Ela indaga incessantemente sua própria natureza, como também nunca se deixa ser apreendida completamente. Se uma missão pode ser atribuída hoje à arte, é a de ser provocativa, causar estranhamento, questionar o que está dado, gerar pensamento crítico. Assumir essa natureza da arte ao utilizá-la em manifestações de cunho político é uma forma de aplicar seu poder para provocar transformações, mesmo que culminem apenas em pequenas revoluções no cotidiano. No meio de tanta objetividade e utilitarismo, faz-se necessária uma dose de poesia.

2 comentários em “Por uma não-objetividade

  1. Ótimo texto, mas cuidado com o uso do Rancière! Colocá-lo ao lado do Greenberg é como colocar dois antagonistas como se dissessem a mesma coisa. Para Ranciere a especificidade do meio se dissolve com o advento do Regime estético, e ele justamente crítica aquilo que o teórico americano entende como autonomia da arte (conferir, a este respeito La Malaise Dans L’esthetique). Para Ranciere o regime estético não começa com a modernidade artística (isto é, as vanguardas). Os valores que geralmente são atribuídos à modernidade artística regem o regime estético, mas o regime começa antes, no Romantismo de Flaubert, no Simbolismo de Mallarmé, no Realismo etc.

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    1. Obrigado pelo comentário. Você tocou em pontos bem interessantes. Compreendo o perigo de colocar Rancière e Greenberg no mesmo parágrafo. Trouxe esse trecho do texto do Greenberg, que eu gosto bastante, pra pensar a noção de liberdade da arte, a não existência de uma função determinada para ela, que é um dos principais assuntos que toco no texto. Essa frase também evoca sua teoria sobre a especificidade do meio, mas não era bem nisso que eu queria me aprofundar, pois teria que trazer outras informações (como a quebra dessa lógica), e fugiria do meu assunto principal. Sobre o regime estético e a modernidade, há várias versões do que se chama “modernidade”. Quando falei sobre o advento do regime estético, não me referi ao modernismo (às vanguardas e seus tantos “ismos”), tanto que evitei utilizar essa palavra, embora ela apareça na citação do Greenberg, pois é dessa modernidade especificamente que ele trata. Talvez aí o texto possa ter causado uma confusão. Mas me refiro a uma modernidade epistemológica, que surge com a filosofia de Kant, o nascimento da estética, a crítica de arte, a era dos salões de arte, etc.

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